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[sábado, 23 de janeiro de 2010]

TRAGÉDIA E SOLIDARIEDADE

Todos os olhos do mundo estão voltados para o Haiti. O país foi quase totalmente destruído por terremotos e a fúria da Terra ainda não se aplacou. A qualquer momento podem surgir novos tremores.
Devido ao grande número de desabrigados e de órfãos, ações de ajuda humanitária de diferentes partes do mundo, inclusive do Brasil são bem-vindas nesse cenário caótico. O país precisa ser reconstruído, mas antes de se pensar em reconstrução do patrimônio físico, é necessário pensar no patrimônio humano, nos milhares de lares desfeitos, nos órfãos deixados pela tragédia.
Diante desse cenário, casais brasileiros e de outros países oferecem-se para adotar os pequenos órfãos haitianos. Aqui no Brasil, os orfanatos estão lotados de crianças em igual situação: perderam seus pais, foram abandonadas ou maltratadas por suas famílias e sabe-se que a maior procura nos orfanatos é por bebês de até 2 anos e de cor branca.
Frente a grandes tragédias, as pessoas, inclusive o governo, parecem esquecer-se dos problemas sociais que enfrentamos no Brasil. Anteontem o prefeito de Salvador, Sr. João Henrique Barradas Carneiro, sugeriu para toda a imprensa que os servidores municipais doassem o valor referente a um dia de trabalho para ajudar as vítimas do Haiti, enquanto a população de Salvador convive com deslizamentos de encostas, com sem-teto abarrotando as calçadas e nada é feito.
Não estou aqui invalidando que façamos doações ao Haiti. São louváveis as ajudas humanitárias à população haitiana, porém os governos não devem usar essa tragédia para de maneira oportunista falar em solidariedade e nós cidadãos não devemos nos deixar levar pela onda de comoção e agir por impulso. Nesses casos a própria ONU é quem define que tipo de produtos deverão ser enviados (hoje devem ser doados apenas alimentos não perecíveis e água engarrafada) e anunciou que as adoções de órfãos haitianos são inviáveis no momento.
Não esqueçamos que a solidariedade deve ser praticada todos os dias, que o Haiti antes do terremoto já era o país mais pobre das Américas e a maioria das pessoas de todo o mundo não tinha seus olhos voltados àquela nação, explorada principalmente pela França e Estados Unidos, países que deveriam ser os principais responsáveis pela sua reconstrução.

Matéria: Niclécia Gama / Foto: Francisco de Assis (Terra) / Postagem: Fabrício Martins
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