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[terça-feira, 16 de novembro de 2010]

CONSCIENCIA NEGRA – EM QUE PATAMAR ESTAMOS?

Chega novembro, o mês da Consciência Negra. A cidade de Salvador vira uma efervescência de seminários, debates, fóruns, alguns dos quais sou participante ativa. Acredito que a participação mais efetiva da comunidade negra em todos os segmentos da sociedade só ocorra de modo eficaz quando houver, de fato, a formação da consciência cidadã.
Fui contar histórias africanas em uma das escolas da Liberdade, em Salvador e contei-lhes o mito da criação do mundo pelo povo yorubá, quando uma criança me perguntou de que cor era Deus. Convidei-a a pensar comigo, sugerindo que Deus pode ser verde, porque está nas plantas, pode ser azul porque está no céu ou pode ser branco, oriental ou negro, porque está em mim e em você. Assustada, a criança, negra arregalou os olhos e me disse: _Mas eu não sou negra! Ao fazer algumas intervenções, saí de lá com ela aceitando melhor a sua cor, porque parecemos com os nossos ancestrais: nossos pais e avós.
Esse fato provoca algumas reflexões e inquietações: Ninguém nasce racista...por que essa criança, negra, de ancestrais negros, não se reconhece como tal? Que valores e crenças as famílias estão legando às crianças? Que valor a sociedade dá às pessoas negras? O que se ensina na escola que não impulsiona o desenvolvimento e aceitação de uma identidade negra? Os livros didáticos insistem em mostrar o negro na condição de escravo, de subalterno e uma África selvagem, diminuindo a condição dos povos africanos e indígenas, com línguas e culturas próprias à condição de “tribos” e camuflando e omitindo países africanos como potenciais economias, a exemplo de Angola, Costa do marfim e outros tantos.
Foram os povos africanos que inventaram a matemática, a agrimensura, a agricultura. Esqueceram que o Egito fica na África?
Por séculos a cultura dos povos africanos foi legada ao esquecimento, ao branqueamento. Precisamos levantar a bandeira da consciência negra não apenas no combate ao racismo, mas na busca de melhorias para a qualidade de vida, de saúde e de educação para que sejam direitos de todos e não apenas de alguns privilegiados.
Precisamos ressignificar a libertação dos escravos, que não foi um ato redentor da Princesa Isabel, mas o resultado de um movimento político e abolicionista que há muitas décadas já permeava as discussões no Império. Portanto à comunidade negra, ela não fez nenhum favor. Ao contrário, deu liberdade a um povo massacrado, que não tinha o direito de freqüentar a escola, não tinha condições de trabalho, nem direito à dignidade. O Estado brasileiro não lhes indenizou pelo trabalho escravo, pela perda de famílias inteiras, pelo racismo, pelo preconceito.
Chega o 20 de novembro e fico me perguntando, em que lugar estamos, quando os mendigos que estão nas ruas são negros, quando as meninas e meninos que estão nas sinaleiras lavando os vidros de nossos carros e vendendo doces nos ônibus são negros, quando os jovens que morrem nas periferias, vitimas das drogas e da violência policial são negros, quando a maior taxa de mortalidade materno-infantil são referentes a mulheres negras.
O dia 20 de Novembro pode ser um dia de festa sim, mas que haja debates, seminários, rodas de conversa com as comunidades negras, que devem ocorrer ao longo do ano, como já afirmei antes. Ter festa é bom, mas que a festa seja a comemoração de uma tomada de consciência e resultado
do empoderamento da comunidade negra através do acesso e garantia dos
seus direitos constitucionais.
Axé para todos!

Matéria: Niclécia Gama / Foto: Google / Postagem: Fabrício Martins
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